Em toda relação existe vínculo: da antropologia à puta

Filme: “Elles”

Categoria: Drama – etnografia

Malgorzata Szumowska l 2012

Como garotas de programa vêem a sua profissão? Essa é umas das curiosidades reveladas, de forma sensível e realista, no filme “Elles”.

Toda exclusão de valores de uma sociedade se limita ao resguardo do invisível na sua condição máxima. A prostituição feminina é uma delas, e faz parte de uma das profissões mais antigas da humanidade, revelada, até hoje, por uma terrível acepção à verdade, na qual empodera muitas mulheres, ao longo da história. Figurando, o papel negativo, de abandono do corpo aos prazeres proibidos, a profissão é datada, ainda atualmente, pelo instinto e valorização do prazer <masculino>.

Mas isso é o que muitos imaginam, pois as versões e os interesses ainda são muito desassociadas de uma versão real, a qual o senso comum desconhece. A revelação sobre o mote do prazer (através de garotas de programa), seja ele por poder, por mais dinheiro ou por avanço de status social, é, ainda algo que causa muita curiosidade e interesse ao grupo feminino como um todo.

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“Depois que ele sai daqui, ele vai direto pra casa; se sente melhor.”

 “Eles gostam de falar de seus trabalhos e mulheres. São entediados. Trabalho com o tédio daquele que me paga”.

 “Sou paga para fazer valer o seu imaginário no superlativo”.

 “Achei que eu seria paga para trepar durante horas, fiquei com medo, mas eles falam mais do que imaginei. Eles gostam de carinho. E de fazer coisas que suas mulheres não fazem.”

Pensando nisso, o filme “Elles” aborda exatamente esta questão, com uma observação – plus – no ambiente – a partir de uma mulher. Pensar na condição de prostituição e penetrar num ambiente especialmente masculino, onde os signos e imaginário são todos do poder (comum e aberto do homem), como os encontros em motéis e flats com “Gps”, é um dado raro entre as histórias de ficção.

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É neste ponto que entra o filme: uma mulher pensando noutra mulher, só que esta <uma puta>. O longa francês com coprodução polonesa retrata a história de Anne (Juliette Binoche), uma jornalista de uma revista feminina, que ganha uma pauta reveladora para sua condição de mulher, fazendo sua vida mudar radicalmente do ponto de vista da sexualidade. Ela teria que investigar a prostituição estudantil, aquela tão manjada condição de que meninas que só fariam isso com o objetivo de sustentar a faculdade. É neste ponto que entra sua condição máxima de antropóloga, desvendando dentro do ambiente o seu grande material simbólico – o cotidiano destas meninas, incluindo em sua pesquisa os desejos, anseios, medos, e desconfortos do submundo do prazer.

 “O que interessa a você além do seu trabalho?” pergunta, Anne, às meninas.

O seu objeto de pesquisa são estudantes de Paris, Alicja (Joanna Kulig) e Charlotte (Anaïs Demoustier). Ambas são super femininas, e têm personalidades marcantes. Charlotte é uma garota de programa sensível, fala com delicadeza da profissão e do namorado. Cita o escritor Gustave Flaubert em sua análise sobre o tempo, acreditando que, esta vida dupla é igual a cigarro: vicia! Já Alicja é desejosa por afeto! Faz da sua profissão o seu álibe para se manter no controle. O caos regula sua bússola e se diverte com orgias (em cenas pra lá de saborosas) – inclusive com a própria jornalista, que esbarra na sua provocação e escorrega no não-controle, encontrando um lugar nada fácil, na manhã seguinte, em conviver com sua condição de jornalista-séria-mãe-de-família, onde tem um casamento naturalmente tedioso, e filhos tão normais quanto a sua cara lavada.

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De cena em cena, o legado em avançar, avançar, avançar sem limites (dentro da pesquisa) é encarnado por Anne, pela falta de maquiagem, cabelos sempre descabelados e por repetições de cenas que evidenciam a sua falta de paciência e necessidade de mais tempo. Fica claro que a mulher incrivelmente verdadeira se deixou abrir (pelo tema) através de uma grande EMPATIA com as meninas, e da sua maneira profunda em falar com elas, vendo a si, em muitos dos discursos. Mesmo sendo uma profissional dedicada à ética, estabelece diferenças, mostrando, a partir da performance corporal, o que sente sobre o tema: SEXO. Tenta de todo jeito observar a vida do sujeito (que entrevista) de longe, garantindo com isso, que não se contamine por palavras marcadas, cheiros exóticos, olhares sedutores, e cenas detalhadamente sexuais: Mas é impossível conviver com aquilo que respinga no corpo a partir de vozes acesas em candelabros suíços (fazendo fumegar qualquer espaço da casa).

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Neste sentido, o filme evidencia [a força que se estabelece numa relação], mesmo que não se tenha a intenção de ser. Mesmo que seja totalmente profissional, abre-se a condição de gerar vínculo, mesmo não o querendo. O instinto de conviver com o outro, além dos ouvidos, marcando o corpo por sensações, prevalece. Basta ter uma segunda vez! É ali que se estabelece e se alimenta a relação, na repetição dos dias e cenas da memória com aquele que te condena ao labirinto do desejo. Paixão sem ternura. Raiz sem corte.

Mesmo sob o império do aperfeiçoamento das sociedades e mudanças nas leis, percebemos, a cada dia, a migração dos sentimentos com relação às meninas (Gps), antes dados pela humilhação e retaliação, e hoje, do interesse e convivência entre mulheres de outras profissões -como mostra no filme, onde Anne é tomada por  influencias dos novos sentimentos, a partir do seu envolvimento por histórias salientes.

Isso me lembrou a inversa posição de neutralidade que carrega a antropologia, sendo antônimo da condição que invade, sem pedir licença (a expressão do tempo constitutivo em vínculo), que alimenta a pesquisa. Malinowski, que o diga, com o seu segundo caderno de campo lotado de sentir, feito nas ilhas Trobriand, na Austrália (1915-16, 1917-18). Ele foi o grande influenciador da antropologia, desenvolvendo o método da investigação de campo, dado pelo nome de etnografia, que tem por principio a observação conjunta e ativa do sentir no espaço naturalista do sujeito.

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O longa, é uma ficção, ok! Mas lembra um campo em filmes do gênero – documentários-, estabelecendo uma linha do tempo a partir de histórias narradas, a partir de fatos reais, detalhados (de forma escrita) com maestria por aquele que ouve as estórias. No caso do filme, fez nascer da jornalista uma grande antropóloga, afim de desvendar em sua essência a vida real destas meninas.

 Me senti numa meta linguagem de eu mesma, pois logo sai o meu documentário – que se aproxima e muito (em campo e sentimento) deste filme. Sob o titulo “Procuram-se Vanessas pra falar de Amor”,  que narra a condição de amor entre estas mulheres (Gps) no mundo.

// Preste atenção

– no poder devorado pelos barulhos e pela falta deles;
– em como Anne abre as ostras e sente o erótico escondido;
– no cheiro de sexo, sentido em várias situações rotineiras;
– em como a jornalista se masturba (pensando) e não goza;
– em como o tédio se instala de pouco a pouco de cena a cena;
– na tentativa de Anne em chupar o seu amor de volta;
– no carinho de Charlotte com o seu cliente no quarto solar;
– na música clássica, incorporando o erudito à cena prosaica do cotidiano;
– na hora em que Alicja faz xixi em frente a Anne, demonstrando intimidade;
– na cena final em que Anne, sentada a mesa com amigos, se vê em muitas personas, e se identifica com a versão da puta!

> Veja o trailer

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