“Daqui a Cem Anos”, quando as previsões e utopias de H. G. Wells atingiram os cinemas

Herbert George Wells (1886-1946), mais conhecido como H. G. Wells, desde seus primeiros livros, como A Máquina do Tempo, A Ilha do Dr. Moreau, O Homem Invisível, A Guerra dos Mundos, entre outros, criouo que se chamaria mais tarde de ficção científica, sendo hoje considerado o pai do gênero.

Não apenas um visionário no campo científico, Wells também era socialista de carteirinha e um idealista. Escreveu vários romances utópicos, em que previa uma sociedade futurista humanitária e igualitária, seguindo os preceitos do socialismo.

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Um desses romances foi The Shape of Things to Come, lançado em 1933. Três anos depois, Sir Alexander Korda, o então maior produtor da Inglaterra, resolve levar o livro às telas. Ele, então, convida o próprio Wells para escrever o roteiro. Seria o primeiro roteiro do escritor levado efetivamente às telas – ele tinha colaborado, antes, num roteiro nunca filmado, chamado The King Who Was a King: The Book of a Film, e ele também escreveria, no mesmo ano, o script da comédia O Homem Que Fazia Milagres.

A ideia original era que o próprio escritor assumisse o posto de diretor, mas, inexperiente, passa a cadeira para William Cameron Menzies, que já tinha dirigido meia dúzia de filmes. E assim nasceu Daqui a Cem Anos (Things to Come).

A história inicia no Natal de 1940 (ou seja, em um futuro próximo, já que o filme é de 1936), na fictícia cidade chamada Everytown (claramente inspirada em Londres).

O engenheiro John Cabal (Raymond Massey) está preocupado com as tensões mundiais, e suas mais sinistras previsões se realizam na noite natalina, com o estouro da Segunda Guerra Mundial (que ocorreria de fato em 1939, e não em 1940, a previsão do filme errou por um ano!). O resultado imediato é o bombardeio a Everytown (outra premonição do filme, que adiantou o bombardeio de Londres pelos alemães, que ocorreu em duas datas: setembro de 1940 e 10 de maio de 1941).

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Nessa versão visionária, o Grande conflito dura duas décadas, reduzindo o mundo a escombros, sem tecnologia e humanos vivendo não muito diferente da Idade Medieval, tanto que não falta nem mesmo uma peste que reduz drasticamente a população mundial. O fim do conflito se vê numa cena, através de uma notícia de jornal onde a data é 21 de setembro de 1966, o centenário de Wells!

É neste cenário distópico que, onde outrora fora Everytown, o povo é governado por um militar chamado Rudolf (interpretado pelo ótimo Ralph Richardson em alusão à Adolf Hitler, então ditador da Alemanha desde 1935, e causador real da Segunda Grande Guerra), mais como ‘Chefe’ (um alusão a palavra ‘Führer’). O ditador tem obsessão pela guerra.

O filme vai até 1970, onde as ruínas de Everytown recebe uma visita inusitada de John Cabal (o engenheiro que vimos no começo do filme, agora com o ator maquiado como velho), que agora faz parte dos “Wings over the World”, uma comunidade autogestionada, construída por cientistas que mantiveram o conhecimento técnico e agora resolvem viajar pelo mundo para ajudar os povos carentes.

Obviamente que a visita de Cabal não é bem vista pelo Chefe, que confisca o avião e prende o cientista. O que acaba atraindo o grupo de aviadores do ‘Wings…’ para resgatar o prisioneiro e acabam dominando a cidade e restaurando-a, assim como outros lugares.

O filme,em sua etapa final, pula para 2036. Agora encontramos uma humanidade próspera, organizada e moderna. Enquanto o neto de Cabal e sua esposa estão prestes a fazer primeira viagem à lua, encontramos a figura de Theotocopulos (Cedric Hardwicke), um artista que vai contra a tecnologia e busca apoio popular para destruir a nave.

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Daqui a Cem Anos é um tanto irregular. Começa om momentos brilhantes como a destruição de Everytown/Londres. E, em que a montagem, com suas justaposições de imagens, e a fotografia nas cenas de batalha, mostram as claras influências de Serguei Eisenstein. A segunda parte da obra, que cobre o período 1966-70, o momento Mad Max do filme, também é eficiente. É no ato final, justamente na utopia tão almejada por Wells, que ele resvala ao se deixar levar por momentos puramente ingênuos, ainda que tenha sua cota premonitória ao prever a viagem espacial e o uso de telas de tv semelhantes as LCDs planas de hoje em dia.

O ponto do filme que mais gera discussões é justamente colocar sua fé no avanço tecnológico e na colonização do mundo pelos “Wings over the World”, dois aspectos (alta tecnologia e colonização) que historicamente também foram geradores de guerras. É uma contradição intrínseca que o filme carrega.

A figura do artista revoltado Theotocopulos também mostra que, mesmo em uma sociedade onde todos vivem confortavelmente, onde se baniu a fome e se desconhece as doenças, sempre haverá um opositor – que aqui é tratado com benevolência, e não abaixo de cacetadas da polícia (afinal, estamos em uma utopia!).

Curiosamente as cenas com Theotocopulos foram filmadas com Ernest Thesiger no papel, porém a produção resolveu utilizar um ator mais famoso e refez as cenas com Cedric Hardwicke (que no ano seguinte faria uma versão de As Minas do Rei Salomão, sendo o primeiro Allan Quatermain do cinema falado).

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Embora o diretor William Cameron Menzies (que na em 1953 faria a clássica ficção B Os Invasores de Marte) mostre um bom serviço, em talvez seu melhor trabalho, este é sem duvida um filme H. G. Wells. O escritor, inclusive, pediu para a produção que o filme fosse o oposto do clássico Metrópolis, obra que ele odiava. Na direção de arte de Daqui a Cem Anos está, entre outros, Vincent Korda, irmão do produtor e Frank Wells o filho de H. G.!

Visto hoje, o filme entra para o filão das ficções pacifistas, como o clássico posterior O Dia em Que a Terra Parou (1951) de Robert Wise. Com uma produção caprichada e um apuro visual ainda eficiente, além de algumas previsões interessantes (provando que o tempo fez bem para o filme), Daqui a Cem Anos pode não ser a obra-prima almejada, mas é um clássico do cinema de ficção-científica. Um épico bem intencionado que merece ser visto.

Daqui-a-Cem-Anos-PosterDaqui a Cem Anos

(Things to Come, Inglaterra/1936)

Direção: William Cameron Menzies

Com: Raymond Massey, Edward Chapman, Ralph Richardson, Margaretta Scott, Cedric Hardwicke, Maurice Braddell, Sophie Stewart, Derrick De Marney, Ann Todd.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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