Conheça uma versão honesta e instigante de “A Metamorfose”

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.”

Esse trecho dá início a uma das maiores experiências da literatura mundial, a pequena novela A Metamorfose (Die Verwandlung), de Franz Kafka, editado em 1915. Há exatos 100 anos, ainda instiga o leitor.

A obra mais célebre do mítico autor checo, que influenciou gerações de artistas (Gabriel García Márquez que o diga!), antecipou o surrealismo, e até hoje é debatida, gerando inúmeras interpretações.

A-Metamorfose-1A célebre história do rapaz que se transformou num enorme inseto (e não exatamente uma barata como se convencionou afirmar) teve algumas adaptações, entre filmes e animações, para o cinema e TV. Uma versão interessante foi à realizada para ao canal de TV alemão 3sat, em 1975, dirigido por Jan Nemec, um dissidente político de origem checa, assim como Kafka.

Esse telefilme de média metragem, com menos de uma hora de duração, segue a risca a história de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante que, numa manhã, acorda com o corpo transformado em inseto, para desespero seu e de sua família. O filme mostra a angustia de Samsa, sua relação com seus pais e sua irmã Grete (a inglesa Edwige Pierre).

A família entra em crise financeira, já que Gregor era o provedor da casa, e logo se vêem obrigados a alugar quartos para três senhores distintos. Ao mesmo tempo, os Samsas tentam esconder o filho de seus inquilinos.

O filme mostra as fases que a família se relaciona com George: primeiro o espanto e a repulsa, passando por uma “aceitação”, isolando-o, e por fim, a revolta, considerando o protagonista um peso morto.

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O interessante nessa versão televisiva é não uso de efeitos especiais e maquiagem. O diretor utiliza aqui o recurso da câmera subjetiva. Se para o espectador mais preguiçoso isso requer um esforço mental para imaginar aparência do inseto que se transformou Samsa (aqui temos apenas sua voz em off, interpretado pelo ator Gunnar Holm-Petersen), por outro lado, a obra coloca o espectador como se fosse o próprio protagonista, numa experiência bastante interessante. Além do fato da câmera “viajar” pelas paredes e tetos (afinal, é um inseto), em travellings e ângulos inusitados, dando uma dinâmica visual bem interessante e fazendo com o que a obra fuja do estigma de ser um mero teatro filmado.

Reparem num quadro na parede, em que vemos o retrato do próprio Franz Kafka, como que a observar toda a ação.

A adaptação realça alguns temas caros a Kafka, como a subserviência nas classes sociais (algo bem presente em outras obras do autor como O Processo e O Castelo, por exemplo), a tensão sexual e a inadequação social, e inda mantém o cruel humor kafkaniano.

Jan Nemec, nascido em Praga, em 1936, chegou a ser chamado de o enfant terrible do que foi chamado da new wave checa, a nouvelle vague local, dirigindo filmes como Demanty Nóci (1964), O Slavnosti a Hostech (1966) e Mucedníci Lásky (1967). Com seu cinema surreal e crítico, Nemec foi convidado a se retirar do país pelo Partido Comunista, sob pena de ser preso. Acabou na Alemanha Ocidental, fazendo filmes para TV, como esse A Metamorfose.

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Incapaz de se adaptar ao cinema convencional, Nemec foi precursor do uso de vídeo em casamentos, filmando o casamento da família real sueca. Com o fim do regime comunista na então Checoslováquia, em 1989, o diretor retorna a terra natal, onde realizou mais alguns filmes até 2009.

Obviamente que esta versão de A Metamorfose, por mais fiel que seja, é incomparável com a monumental obra arquitetada por Kafka. Porém é uma versão fiel e instigante que deve ser vista.

A Metamorfose

(Die Verwandlung, Alemanha Ocidental/1975)

Direção: Jan Nemec

Com: Heinz Bennet, Zdenka Procházkóva, Edwige Pierre, Gunnar Holm-Petersen

Filme completo com legenda em português:

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