“Colors” mostra que ainda tem bala na agulha

Clássico filme policial sobre briga de gangues, Colors – As cores da Violência mostra que não envelheceu e que ainda tem lenha para queimar.

Como um bisturi, a câmera documentalmente rasga as ruas dos bairros pobres de Los Angeles, um caldeirão étnico fervilhante, mas também um barril de pólvora dominado pelas gangues, principalmente pelos Bloods, que usam as cores vermelhas como signo de identificação, e os Crips, estes utilizam azul (vale frisar que estes dois grupos não só existem, como ainda atuam nas regiões periféricas de L.A.).

Neste cenário urbano caótico e miserável, encontramos a dupla de policiais responsáveis pela ronda: Bob Hodges (Robert Duvall), veterano das ruas, a beira da aposentadoria e que tenta levar as coisas da forma mais calma e negociável possível; e Danny McGavin (Sean Penn, num papel oferecido anteriormente a Mickey Rourke), um novato explosivo e impetuoso. Obviamente que a dupla, além da marginalidade, terá que superar os próprios conflitos que geram entre eles.

Para piorar a tensão já natural, um jovem negro da gangue do Bloods é brutalmente e gratuitamente assassinado por Rocket (Don Cheadle), um Crips doidão de drogas, criando um clima que beira uma guerra civil. No meio desse fogo cruzado, ainda temos a gangue da Rua 21, um grupo menor, formado majoritariamente por hispânicos e liderado por Frog (Trinidad Silva, que lembra o Maradona). As conseqüências do conflito serão trágicas para todos.

Ao usar a velha forma da dupla de tiras apenas como fio condutor de uma narrativa que beira ao episódico, Colors dispensa o discurso moralista padrão de Hollywood e a sociologia de almanaque, ora tomando ares de documentário, ora mostrando os códigos de honra lealdade entre criminosos, sem esconder o fato de que os policiais aqui são anti-heróis, dignos de atos de truculências e arbitrariedades, ou seja, humanos com falhas. Eis o trunfo que faz com que o filme não tenha envelhecido.

O grande mérito cabe ao diretor Dennis Hopper, o enfant terrible da Nova Hollywood, que botou o cinema norte-americano de pernas pro ar com o clássico da contracultura Sem destino (1969). O diretor, falecido em 2010, notório por suas brigas e abuso de drogas, sempre nadou contra a corrente da América WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant). Ele pegou o roteiro original de Richard Di Lello, que se passava em Chicago e focava mais o tráfico de drogas, e chamou Michael Schiffer para reescrevê-lo, mudando o cenário para Los Angeles e dando ênfase ao mundo das gangues.

Impossível falar desse filme sem comentar o elenco, com destaque par a dupla principal, os cicerones desse inferno. Sean Penn e Robert Duvall estão espetaculares, simplesmente carregam o filme. Ainda temos a exuberante Maria Conchita Alonso (cujo último filme de destaque foi o abacaxi As Senhoras de Salem). Reparem também na presença de Damon Wayans (do seriado Eu, a Patroa e as Crianças), aqui na pele de um junkie engraçadinho e sem noção (papel digno de seu irmão Marlon Wayans na franquia Todo mundo em Pânico), a cena da prisão de seu personagem é tão surreal e bizarra que parece que está ali só por galhofa de Dennis Hooper.  E ainda temos Tony Todd (o Candyman em pessoa), como um pai veterano do Vietnam, exasperado com a inoperância dos assistentes sociais.

Colors antecipou a onda de filmes obre brigas de gangues das comunidades negras, como Os Donos da Rua de John Singleton, Perigo para a Sociedade dos irmãos Albert e Allen Hughes, New Jack City de Marion Van Peebles, todos estes dirigidos por negros, além, é claro, de antecipar o cinema de Spike Lee. Se o branquelo doidão Dennis Hopper estivesse vivo e realizasse este filme hoje, ouviria coisas como roubo de protagonismo de fala, e bobagens do tipo, e provavelmente mandaria as favas seus detratores descerebrados.

A trilha de Herbie Hancock pontua bem a ação, mas a canção título é que virou um clássico, um rap cantado pelo grande Ice-T.

No quesito técnico e nas cenas de ação, nos tiroteios e numa ótima perseguição de carros pelas ruelas e becos imundos e de chão batido, temos toda a competência que se espera de um produto made in Hollywood. Porém, graças a perspicácia do diretor, é no tratamento ao lado humano é que faz com que Colors ainda tenha relevância. Um ótimo filme.

Colors – As Cores da Violência

(Colors, EUA / 1988)

Direçlão: Dennis Hopper

Com: Sean Penn, Robert Duvall, Randy Brooks, Gran L. Bush, Don Cheadle, Trinidad Silva, Damon Wayans, Tony Todd.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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