“Cinderela Baiana”, o desastre cinematográfico de Carla Perez

A ideia até que não era má, comercialmente falando. Pegue uma personalidade que está fazendo um sucesso popular estrondoso e faça um filme, que é uma pseudo-biografia – pra lá de romanceada – estrelada por essa mesma personalidade. Pronto! Tem como dar errado? Bom, se a personalidade for Carla Perez e o filme for Cinderela Baiana, saiba que deu muito, mas MUITO errado. O filme foi um fiasco de bilheteria e, para reforçar, muitos consideram esse um dos piores filmes brasileiros de todos os tempos.

O filme era para dar um gás na carreira da bailarina Carla Perez, já que nesse mesmo ano, 1998, ela deixaria o grupo É O Tchan!, sendo substituída por Sheila Mello, que ganhou um concurso no Domingão do Faustão. Nesse mesmo ano, Carla seria capa da revista Playboy pela segunda vez – a primeira foi em 1996. O problema é que o filme não correspondeu as expectativas.

Assistir Cinderela Baiana é uma experiência masoquista, de tão ruim que é. Por outro lado, escrever sobre essa obra pode ser uma experiência sádica, e o escriba tem que se conter para não ser cruel com os envolvidos nesse filme, que é pura vergonha alheia.

O filme abre com Carla rebolando no trio elétrico durante os letreiros. Aliás, você sabe que vai ver uma bomba quando até o título tá escrito errado. Aqui aparece bem fulgurante o letreiro: Cinderela Bahiana, na capinha do vhs arrumaram isso, mas isso é um presságio da tosquice que está por vir.

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Já começou errado.

Depois dos letreiros, o filme mostra um pouco da infância miserável de nossa protagonista. Carlinha (interpretada pela menininha Carla Fabianny, em seu único filme) mora com seus pais em condições de extrema pobreza num barraco cravado no sertão.

Logo de inicio, vemos a família acordando para mais um duro dia pela frente. A mãe tuberculosa soltando tossidas forçadas, enquanto uma grande e lustrosa cobra passa por cima da criança dormindo. O pai pega o réptil com as mãos e solta a sentença: “Não dá mais para viver nessa casa, tem buraco em tudo que é canto!

O pai sai para trabalhar – ele trabalha em bicos de serviços gerais e faz o mobral na noite. Já, Carla e sua mãe vão com uma pá esburacada tapar buracos na estrada, em troca de moedas dos motoristas. O problema é que as duas têm que disputar as esmolas com vários moleques que também estão lá tapando buracos ou vendendo passarinhos em gaiolas para caminhoneiros.

O interessante é que, pelo visto, Carla, desde criança, teve o dom de sair rebolando ao som de qualquer música que tocar em volta, o que lhe angaria mais moedas que das outras crianças, para revolta destas, até o ponto que um dos garotos quebra a pá da mãe de nossa protagonista, e o estresse é tão grande que a mulher falece. O interessante é que, enquanto a mãe morria, Carlinha estava requebrando na beira da estrada ao som do clássico “Nega do cabelo Duro” de Luiz Caldas.

Com a mãe morta, Carla tem a chance de sair do sertão, pois seu pai ganhou uma proposta de emprego num escritório de contabilidade na cidade grande.

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Carla indo para sua casa na favela de Salvador.

Corta e agora estamos em Salvador. Vemos o pai de Carla, depois de três anos de bons trabalhos, ser promovido de contínuo para auxiliar de escritório. Daí você para pensar: então faz três anos que eles estão morando na cidade grande, certo? Sendo assim, a jovem Carla, que no início é uma criança que deveria ter de uns dez a doze anos no máximo, deve estar a essa altura do campeonato, com quinze anos se muito… Mas não! Vemos agora a própria Carla Perez, com toda sua falta de talento, usando trancinhas como a personagem-título do desenho animado dos anos 70, e que poucos irão lembrar, chamado Heidi.

Ela e o pai moram em uma favela que fica acima de um rio (ou seria um esgoto?), e nossa heroína faz amizade com dois moradores de lá, Chico (o hoje festejado Lázaro Ramos) e Bucha (Lucci Ferreira). Na verdade, os dois costumavam espiar Carla todos os dias pelas frestas de madeira do barraco em que a moça vive. A moça se junta aos seus dois voyeurs, e formam um trio inseparável.

Um dia, quando nosso trio de heróis, sem dinheiro e famintos, resolvem enrolar uma vendedora de acarajés para roubar seus quitutes- e acabam tomando um sermão da mesma -, o discurso da vendedora é interrompido por uma música. E, como Carla já demonstrou que tem o diabo no pé desde criança, a menina põe a rebolar sem constrangimento, o que atrai a atenção o povo – que consequentemente compra todos os acarajés da vendedora, e esta então se convence que Carla Perez é um anjo enviado pelo céu.

Como bizarrice pouca é bobagem, a vendedora de carajés, convencida de que nossa protagonista é um presente divino, vai tirar a prova: vai até um terreiro saber o que os orixás têm a dizer a respeito de Carla. O que acontece é puro realismo mágico no lugar errado, a mãe-de-santo vai até um gramado, onde recebe várias entidades, ou seja, vários atores fantasiados de personagens do candomblé para no final dar o veredito: Carla Perez realmente dá sorte!

Como todo conto de fadas que se preze, é aguardada a reviravolta na vida da mocinha, que a fará sair de sua vida de privações (Carla é tão pobre que anda descalça o tempo todo, não tem nem uma havaianas para salvar, tadinha). A virada se dá nas mãos do excêntrico empresário Pierre (Perry Salles, falecido em 2009, cujo mérito mais reconhecido em sua carreira foi o de ter sido casado com a Vera Fischer). É ele que descobre, através de uma filmagem, a loira dançarina, e resolve lança-la em seu novo grupo de axé.

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Carla entra em ação e causa comoção.

Claro que Carla recebe um banho de loja, e ganha até sapatos! E faz um sucesso estrondoso, com shows por todo o Brasil e apresentações na Europa (só não espere cenas de shows, e muito menos locações no exterior, tudo isso ficamos sabendo através dos diálogos). A situação fica tão boa financeiramente que até o pai de mossa heroína acaba comprando a firma de contabilidade onde trabalhava como ajudante. Emocionante, não?

Porém, nem tudo são flores. Pierre, o empresário, é o vilão maquiavélico que quer explorar a loira sem remorso algum, e pior: quer casar com ela. O detalhe que atrapalha é que Carla está engatando um romance com Alexandre (Alexandre Pires, na época namorado da estrela principal). Carla terá que se livrar de Pierre, continuar sua carreira, consolidar seu namoro e ainda reatar sua amizade com Chico e Bucha, seus amigos do tempo de penúria, que ela arrogantemente abandonou.

Cinderela Baiana consegue ser ridículo do início ao fim. Nem sua trilha sonora ajuda, muito pelo contrário: Inúmeros clássicos do axé estão presentes aqui, músicas que embalaram carnavais, bailes, festas familiares e bordeis.

Não é a toa que Cinderela Baiana foi renegando por quase todos os envolvidos. Carla Perez, depois desse fiasco, fez apenas uma ponta em Xuxa Requebra, realizado em 1999, e abandonou o cinema.

O caso mais curioso é do produtor, o lendário picareta Antonio Polo Galante, que produziu dezenas de filmes da Boca do Lixo: depois desse fracasso, se aposentou e foi cuidar de seus cavalos em sua fazenda no interior paulista.

O diretor Conrado Sanchez, que aqui também é responsável pelo roteiro, é outra figurinha da Boca, responsável por filmes pornôs com títulos delicados tais como Como Afogar o Ganso, A menina e o Estuprador e A Menina e o Cavalo. Sanchez, a exemplo de Galante, foi outro que sumiu do mapa cinematográfico brasileiro depois do fiasco de Cinderela Baiana. Obviamente, o diretor tentou salvar sua pele, alegando em entrevistas a velha desculpa de que o filme ficou do jeito que ficou porque foi filmado apenas metade do roteiro, culpa do baixo orçamento.

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Perry Salles numa interpretação over.

O filme é renegado por quase todos os envolvidos, incluindo a própria Carla Perez. Talvez o único envolvido que tenha gostado de ter participado da obra seja o festejado Lázaro Ramos. Segundo ele, com o dinheiro do cachê deu para largar seu emprego num hospital (ele é formado em patologia) e terminar seu curso de artes cênicas.

Há curiosas lendas em volta desse filme. Uns falam que o filme chegou a ser recolhido num processo legal (mas você o encontra inteiro no youtube, como podem comprovar no fim dessa matéria); Outro é de que na época, alguém tinha inscrito Cinderela Baiana para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e dizem que essa lenda chegou a ser propagada pela própria Carla Perez!

Alguns tentam explicar o fracasso do filme graças ao fato de ele ter sido lançado no fim da era dos cinemas de ruas, que deram lugar aos cinemas de shopping, onde o público seria supostamente elitizado, e portanto rejeitaria uma obra de apelo claramente popular. Quem argumenta isso deve lembrar que o filme deve ter fracassado por ser estupidamente ruim. Simples assim!

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Carla demonstrando sua devoção pelas crianças.

As interpretações são dignas de colégio infantil. O desempenho mais interessante é de Perry Salles, completamente histérico e histriônico, digno de quem está chutando o balde – você fica na dúvida se sua interpretação exagerada é causada por drogas, por querer desmoralizar com a bomba em que está metido ou ambas as alternativas, dúvida cruel.

A trama é risível e as falhas gritantes, tudo embalado num clima de ingenuidade de matar Ed Wood de inveja. Isso sem falar na cena final patética, onde Carla Perez, cercada de crianças esfarrapadas faz um “discurso” construtivo em prol dos menores, para depois todos saírem dançando (inclusive figurantes vestidas de freiras) a letra maliciosamente dúbia do É o Tchan!

Caído na obscuridade, Cinderela Baiana hoje é cultuada por aquele seleto grupo de apreciadores de filmes que se convencionou chamar de trash. Se você for adepto do “quanto pior melhor” vai achar tudo muito divertido, caso contrário recomendo distância.

 Cinderela-Baiana-PosterCinderela Baiana / Cinderela Bahiana

(Brasil, 1998)

Direção: Conrado Sanchez

Com: Carla Perez, Alexandre Pires, Perry Salles, Josevaldo Oliveira, Fábio Vidal, Lázaro Ramos, Lucci Ferreira, Carla Fabianny.

Só para os fortes:

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