“Chained for Life” ou como estragar uma ideia bizarra num filme monótono

Imaginem duas irmãs siamesas, uma delas mata um homem, o que faz a justiça? Condenaria as duas, sendo uma inocente, ou inocentaria as duas, sendo a outra declaradamente culpada? Este conflito um tanto surreal é o mote de Chained for Life, exploitation de baixissímo orçamento realizado em 1951, que apesar do plot sugerir uma história policial ou suspense, envereda por outros caminhos, mais sonolentos.

O filme abre com a fala de um juiz (Norval Mitchell) indicando ao público que verá um terrível dilema, logo passaremos para uma cena de tribunal (com poucas pessoas em cena e um cenário com cara de cenário), antes de partir de vez para o inevitável recurso do flashback, e aí sim, veremos o drama se desenrolar.

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As irmãs siamesas Vivian e Dorothy Hamilton (Violet e Daisy Hilton que já tinham participado do clássico Freaks (1932) de Tod Browning) tentam a vida como cantoras em teatros de vaudeville. O empresário delas, um tipinho vulgar chamado Hinkley (Allen Jenkins) tem uma ideia para atrair mais público: engatar um romance de um rapaz com uma das moças. Sendo assim, o empresário paga a Andre Pariseau (Mario Laval), que se apresenta no número de tiro ao alvo, para que namore uma das irmãs. Vivian acha a negociata repulsiva e se recusa, sua irmã Dorothy resolve aceitar a picaretagem, porém, acaba se apaixonando para o atirador pé de chinelo, que por sua vez tem um romance com sua auxiliar de palco Renne (Patricia Wright).

Andre embarca na farsa e pede Dorothy em casamento, mas os pombinhos se vêem impedidos de levar o projeto adiante por alegações de que seria bigamia. A moça, ansiosa pelo casamento, tenta inclusive consultar auxilio médico, em busca de uma cirurgia de separação, mas isso poria em risco a vida de uma das irmãs. Outro projeto fracassado.

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Finalmente Dorothy consegue casar com Andre, quando eles encontram um padre cego para realizar a cerimônia! Porém no dia seguinte o atirador larga Dorothy, alegando ser impossível manter um relacionamento assim. Vivian, então possessa pelo descaso que o moço fez com sua irmã, quando tem uma oportunidade mata Andre com uma de suas armas, em plena encenação de um espetáculo.

Chained for Life a primeira vista, parece ser um daqueles produtos politicamente incorretos, sensacionalistas e comicamente involuntários, porém o filme acaba indo para o lado do musical, mostrando os dotes vocais das moças, além de números de vaideville, como a participação de Tony Iavello, um tocador de acordeom que faz um número onde toca William Tell de Gioachino Rossini e uma versão acelerada da Dança Húngara N° 5 de Johannes Brahms. Esses números teatrais, feitos provavelmente para encher linguiça e aumentar o tempo de duração do filme é um convite ao sono.

Spoiler: a conclusão do drama é completamente broxante, deixando o tribunal em aberto, para que o espectador decida por si o dilema. Dá para acreditar?

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Dirigido com incompetência por Harry L. Fraser, em seu último filme. O diretor, que começou no cinema mudo e acabou parando no poverty row, o ‘cinturão de pobreza’ de Hollywood, com seus estúdios miseráveis, como Monogram e PRC, tem mais de oitenta obras em seu currículo, incluindo perolas como O Gorila Branco (1945) e I Accuse My Parents (1944), filme de exploração sobre delinquência juvenil.

Embora o plot de Chained for Life pareça improvável, o roteiro contém dados biográficos das irmãs que realmente se apresentavam cantando em teatros. Daisy e Violet nasceram em Sussex, Inglaterra, em 1908. Filhas de uma garçonete solteira, as gêmeas caíram nas mãos de pessoas inescrupulosas, a patroa da mãe, que ajudou no parto, comprou as meninas de sua progenitora, e assim elas eram exploradas em atrações bizarras, os chamados freaks shows. As garotas passaram a vida ensaiando e se apresentando, e sofrendo abusos físicos e agressões.

Em 1961, numa turnê pelos Estados Unidos, as duas foram simplesmente abandonadas pelo empresário na Carolina do Norte. Sem passagem e dinheiro para se sustentarem, acabaram arranjando um emprego num supermercado. Em janeiro de 1969, após dias sem aparecerem no trabalho, o chefe das moças chama a polícia. Elas foram encontradas mortas em casa, vítimas de gripe. Segundo a autópsia, Daisy foi a primeira a morrer, Violet teria morrido entre dois a quatro dias depois.

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Freaks e Chained for Life foram as únicas participações delas no cinema, em 2012 foi lançado Bound by Flesh, documentário sobre a vida infortuna vida das moças.

Embora ignorado pela maioria da humanidade Chained for Life chegou a passar num festival nos EUA chamado Worst of the Worst Film Festival (O Pior dos Piores), onde teve a honraria de acompanhar os clássicos de Ed Wood Plan 9 from Other Space e Glen or Glenda.

Chained for Life tinha potencial para um exploitation interessante, mas resvala na monotonia. Ao contrário do clássico Freaks, este aqui serve apenas como curiosidade apenas.

chained-for-life-posterChained for Life

(EUA / 1951)

Direção: Harry L. Fraser

Com: Daisy e Violet Hilton, Mario Laval, Allen Jenkins, Patrícia Wright, Alan Keys, Norval Mitchell, Tony Iavello.

 

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