“A Bela e a Fera”, o melhor conto de fadas do cinema

A Bela e a Fera é uma história clássica francesa, originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, que depois foi resumida e modificada em 1756 por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont. E é esta última versão que serviu de base para adaptação cinematográfica de 1946, dirigida por Jean Cocteau, simplesmente o mais belo conto de fadas do cinema.

Após os créditos, temos um texto em que Cocteau pede para que o público adulto tenha a mesma credulidade das crianças para a fruição do que estará por vir. O espectador que embarcar neste pedido – o de receber o fantástico de coração e braços abertos – vai ser presenteado com o encantamento e a magia típica das fábulas infantis, que é transportada de forma graciosa para as telas.

A-Bela-e-a-Fera-1

A história é conhecida. Bela (Josette Day) vive com o pai (Marcel André), um comerciante acossado por credores, com o irmão Ludovico (Michel Auclair) e suas duas irmãs, as megeras ambiciosas Felícia (Mila Parély) e Adelaide (Nane Germon). Frequenta ainda a casa da família o jovem Avenant (Jean Marais), que sonha em desposar Bela.

O pai da donzela vai até a cidade, depois de receber a notícia que uma carga de navio que esperava finalmente chegou ao cais, acossado por um agiota, com clara caracterização do estereótipo judaico. A chegada das mercadorias seria a salvação do patriarca de saldar suas dívidas. Porém, ao chegar ao porto, o comerciante descobre que os credores locais já pegaram toda a sua carga. Desolado e sem um tostão para pagar por um pernoite numa estalagem barata, o comerciante parte para casa em plena noite.

Ao perder o rumo de casa, o homem para em um castelo, onde pega uma rosa no jardim, para levar para Bela, sua mais virtuosa filha, quando é interpelado pelo anfitrião da casa, a Fera, um ser meio homem, meio animal (Jean Marais novamente, desta feita sobre pesada maquiagem que levava em torno de cinco horas para terminá-la).

A-Bela-e-a-Fera-2

Ameaçado de morte pelo monstro, em decorrência da audácia de lhe roubar uma rosa do jardim, o velho recebe como alternativa oferecer uma das filhas a fera em troca de sua vida. Resignado com a ideia da morte, o pai resolve se entregar aos caprichos da besta, porém Bela resolve tomar o lugar do pai, e vai morar com a criatura.

O castelo da Fera é um lugar encantado, onde as paredes ostentam braços humanos que seguram castiçais, cujas velas acendem sozinhas, além de estátuas com rostos de seres humanos de verdade, que dão o tom ainda mais fantástico.

Estes dois seres solitários, cada um ao seu modo (a Bela com sua bondade e virtudes em meio à corrupção humana e a Fera com sua condição bestial) acabam aos poucos se conectando até o final idílico.

Spoiler:

Na história original, bastava que a Bela declarasse seu amor a Fera para que este se transformasse num belo príncipe, aqui a um acontecimento paralelo: Avenant, o pretendente da nossa heroína, tenta invadir uma estufa onde estaria supostamente guardada a riqueza da Fera, mas acaba morto com uma flechada de uma estátua de Diana, deusa da lua e da caça na mitologia romana. No momento em que é morto, Avenant se toma as formas da fera, enquanto esta toma as formas de um príncipe com a cara do ladrão morto. Fica-se a impressão de que não bastava que a Bela declarasse seu amor, era preciso um sacrifício humano para quebrar o encanto. Essa dubiedade enriquece ainda mais o filme.

Uma pequena anedota a cerca desse final conta que ao mostrar Jean Marais sobre os trajes de príncipe, Greta Garbo teria dito: “Me deem a Fera de volta!”.

A-Bela-e-a-Fera-3

Jean Cocteau (1889-1963) foi poeta, romancista, dramaturgo, ator, designer, pintor e cineasta. Construiu aqui uma obra mágica, mas não a magia de efeitos mirabolantes e computadorizados, mas sim a magia causada pela fotografia, montagem,

Comments

comments

Related Posts