“Argo”, a mirabolante farsa para salvar vidas

Argo, dirigido pelo astro Ben Affleck, baseado numa mirabolante história real, foi o grande vencedor do Oscar de 2013, abocanhando os prêmios de melhor filme, melhor roteiro adaptado – para Chris Terrio, baseado no livro The Master of Disguise de Tony Mendez e numa matéria pra a Weird Magazine de Joshuah Bearmann –, e prêmio de melhor edição. É, na verdade, uma boa reflexão de como um roteiro de filme B pode ter mais de uma utilidade.

O filme começa bem didático, mostrando documentalmente a intervenção norte-americana no Irã, colocando na liderança um xá esbanjador, incompetente e corrupto, gerando a insatisfação da população, eclodindo na revolta islâmica de Teerã (capital do Irã, para quem matou aulas de geografia) e a invasão a embaixada norte-americana, em 4 de novembro de 1979.

Esta introdução, que não tinha no roteiro, tem a tentativa de não demonizar o povo iraniano. Imaginem esse filme sendo feito pela produtora Cannon, em plenos anos 80, no auge da Era Reagan? Os iranianos provavelmente só faltariam comer criancinhas. Apesar deste cuidado inicial, o filme não escapou de ser tachado de estereotipar e demonizar a população do Irã. Inclusive, houve um radical tentando processar a produção, alegando que a obra poderia gerar conflitos, e culpando Ben Affleck por futuros crimes de guerra! Obviamente a acusação foi arquivada por um juiz sensato.

Com a invasão da embaixada, quase todos os norte-americanos ali foram feitos refém. Com exceção de seis que conseguiram, milagrosamente, escapar pela portas dos fundos. Sim, os revoltosos não calcularam que alguém poderia fugir pela porta de trás. Esses seis fugitivos acabam se escondendo na embaixada canadense. A grande questão será como tirar eles do país. Entra em cena então o agente da CIA, Tony Mendez (quem mais,senão Ben Affleck, num papel pensado para George Clooney?), um especialista em ‘exfiltração’, eufemismo pomposo para resgate.

Depois de algumas discussões e ideias estapafúrdias, Mendez decide ir disfarçado como produtor de um filme de ficção B, que iria até o Irã em busca de locações para o suposto filme, resgataria os seis embaixadores, disfarçados como a equipe de produção. Tem lá sua lógica, afinal, quem mais sem noção que Hollywood para ir a qualquer parte do globo para buscar locações?

Para tornar crível seu plano, Mendez arma todo um aparato, com a ajuda do maquiador oscarizado John Chambers (interpretado por John Goodman) e do produtor Lester Siegel (Alan Arkin, personagem fictício, na verdade uma fusão de personagens reais). Assim, eles escolhem um roteiro chamado Argo (uma referência aos argonautas, da mitologia grega), criam um roteiro, com storyboards do lendário Jack Kirby (Numa participação rápida de Michael Parks, Kirby alegaria que jamais soube que seus desenhos seriam usados para um plano de resgate), notícias no Variety, etc.

Claro que nem tudo sai como o esperado: há o conflito entre Mendez e um dos norte-americanos, que simplesmente não acredita no plano e nem no agente. Claro que o clímax será o embarque no aeroporto com todas as convenções necessárias de um filme de suspense.

Além de acusado pelos Iranianos. Argo também caiu nas criticas dos canadenses, que alegam que o filme diminui a participação da embaixada canadense na história. Curiosamente, a ideia de escapar o Irã como uma equipe de produção de cinema foi oculta pela CIA até 1997, quando o então presidente Bill Clinton autorizou a revelação da história. Até aí, o Canadá tomava todos os louros pelo ocorrido, tanto que nesse meio tempo teve até um telefilme canadense, The Escape of Iran: The Canadian Caper (1981), de Lamont Johnson, que contava a versão oficial da época. O mais engraçado é que, hoje, pesquisando na internet, há canadenses que alegam que o telefilme, omitindo toda a história das filmagens, é mais fiel aos fatos que o filme de Affleck!

Argo é cheio de imprecisões históricas e liberdades factuais. Inclusive, dá pra perceber, a partir do DVD lançado no Brasil, onde nos extras há um documentário envolvendo os personagens reais,,contradições, principalmente em relação ao momento do embarque. Muitas das liberdades históricas, segundo o próprio diretor, foram tomadas para tornar a trama mais ágil e aumentar o suspense. Interessante confrontar o filme com o documentário e notar como acharam atores bem parecidos com os personagens do caso real, com exceção do próprio Mendez, um descendente de mexicanos que nada parece com o europeu Ben Affleck.

Apesar dos detratores, Argo é sim um filme eficiente, ainda mais se levarmos em conta que não estamos diante de um Costa-Gravas ou Hitchcock, mas de um Ben Affleck, que conduz um história quase surreal, com a tensão certa nos momentos certose que poderia cair no ridículo. Filmado na turquia ‘maquiada’ de Irã, sente-se falta de algumas brincadeiras metalinguísticas, que seriam interessantes.

Talvez o maior mérito de Argo seja mesmo o fato de que se pode entrar num país convulsionado e tirar seis pessoas que correm perigo de vida, sem disparar um único tiro ou ferir nenhum oponente, apenas apoiado numa idéia maluca e na base da cara-de-pau.

Argo

(EUA, 2012)

Direção: Ben Affleck

Com: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea Duvall, Scooty McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé. 

 

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