“Aquarius”, o ‘filme-evento’ do momento brasileiro

Impulsionado por polêmicas por todos os lados – a manifestação contra Michel Temer em Cannes, acusação de retaliação do governo ao colocar a censura de 18 anos (posteriormente abrandada para 16), incitação de boicote ao filme por um colunista da revista Veja, a não classificação como representante brasileiro ao Oscar – o interessante Aquarius, nova empreitada de Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor), antes mesmo de chegar às salas de exibição já tinha sido abraçado como o queridinho da esquerda brasileira, e está lotando salas país afora, com direito de gritos de ‘Fora Temer’ ao fim das sessões! Se tornando o ‘filme-evento‘ do momento brasileiro, por mais nonsense que isso pareça.

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Temos aqui Clara (Sonia Braga, simplesmente ótima), uma burguesa viúva, ex-jornalista e escritora, que vive em seu apartamento no condomínio Aquarius, na Av. Boa Viagem, no Recife. Tudo o que ela quer é tocar sua rotina de banhos de mar, com sua coleção de discos, na moradia que conviveu com falecido esposo e onde criou seus filhos, agora adultos e independentes.
Para abalar a estrutura da mulher, aparece Diego (Humberto Carrão), o vilanesco playboy, que trabalha para a empresa de construção que pretende demolir o Aquarius para criar uma obra moderna. A empresa já conseguiu cooptar os outros moradores, que se mudaram. Apenas Clara, sozinha no prédio, segue como foco de resistência. Assédios, ameaças e chantagens fazem parte dos artifícios da construtora para tentar retirar dali a última e teimosa moradora.
Não é um filme sobre luta de classes, nem mesmo sobre direita versus esquerda, mas sobre o enfrentamento de uma pessoa contra forças maiores que tentam atacar sua individualidade, e aqui, no caso, retirar suas raízes. Ou seja, um tema universal (por isso já merecia uma tentativa no Oscar).

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Aquarius trata de um tema caro aos recifenses, os projetos de modernização urbanística da capital pernambucana, que causaram muita polêmica por lá. Como o caso da área do Cais José Estelita, que foi arrematada em leilão pelo Consórcio Novo Recife.
Também é fácil para o público ver na figura de Diego, com seu sorriso Colgate e insinuações de intimidação, e a empresa em que trabalha, como o diabólico capitalismo. Mais fácil do que ver Clara como a dona de casa burguesa. Aliás, a construção da protagonista é interessante: ela é uma mulher de personalidade forte, mas de momentos de invulnerabilidade e carência, que enfrentou um câncer de mama, fuma uns baseados e é compreensiva com o filho gay. Ingredientes que batem no coração do povo à esquerda (só faltou ser vegetariana). Praticamente um tutorial de como agradar esse nicho, assim como o vilão, um jovem ambicioso com curso de business nos EUA, é o protótipo da idealização do jovem direitista usuário de Facebook.
E se Quentin Tarantino recheia seus filmes de citações a outras obras cinematográficas, Kleber Mendonça Filho enche seu filme de citações, situações e especulações da atual vida social e política brasileira. Quando falam da filha da empregada de Clara, que morreu atropelado por um rico bêbado, fica difícil não lembrar do Thor Batista, ou quando mostra rapidamente uma citação dos Illuminatis – não seria uma indireta as especulações de ligações do PSDB a maçonaria? Sem falar em escândalos sem provas do irmão da protagonista (PT?).

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Mas não interpretem mal, pois todo esse esquematismo não tira os méritos de Aquarius, que é um bom filme. Sua maior força está em Sonia Braga, exuberante, que conquista por seu carisma e empatia, assim como Regina Casé em Que horas Ela Volta? da diretora Anna Muylaert, cujo último filme, Mãe Só Há Uma naufraga justamente pela falta de empatia (leia sobre ele aqui).
Aliás se há uma coisa em comum entre Aquarius e Mãe Só Há Uma são seus finais em aberto, aquela coisa irmãos Coen de ser, com conflitos e tensões no ar, e que nem sempre são as melhores soluções.
Paixões políticas e situações nonsenses extra-tela a partes, Aquarius é um bom drama, que flui bem, nem se nota suas mais de duas horas e vinte de duração.

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(Brasil, 2016)

Direção: Kleber Mendonça Filho

Com: Sonia Braga, Julia Bernat, Humberto Carrão, Barbara Colen, Paula De Renor.

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